17 de outubro de 2020 Off Por Pedro Taunay Graça Couto

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DIA DO FOGO COMPLETA UM ANO,
COM LEGADO DE IMPUNIDADE

Áreas que queimaram em 2019, na ação coordenada de fazendeiros e desmatadores, estão hoje destruídas e algumas ocupadas por gado, mostrando que no Brasil o crime compensa

Em agosto de 2019, enquanto a Amazônia enfrentava números recordes de queimadas, um grupo de fazendeiros do Pará decidiu organizar uma manifestação criminosa em apoio às políticas de desmonte ambiental do Brasil: o Dia do Fogo. E os números, que já eram ruins, chegaram a níveis estratosféricos naquele mês.

Nesta nova denúncia, mostramos que, um ano depois desta ação coordenada, a impunidade reina absoluta e as áreas que foram queimadas no ano passado já se encontram com desmatamento consolidado e gado, muito gado. O caso reforça a ligação íntima entre o fogo na Amazônia e o ciclo do desmatamento, onde o objetivo principal é sempre a mudança do uso do solo e a destruição da floresta.

O que foi o Dia do Fogo

Mesmo sendo possível identificar um grande número de responsáveis, apenas 5% dos envolvidos na queima de florestas tiveram áreas embargadas, outros continuam produzindo a pleno vapor

Durante os dias 10 e 11 de agosto de 2019, aconteceu no Pará o que ficou conhecido como “Dia do Fogo”, quando produtores rurais da região se mobilizaram para atear fogo na Amazônia. Apenas nesses dois dias, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) detectou 1.457 focos de calor no estado, um aumento de 1.923% no mesmo intervalo, quando comparado ao ano anterior. Enquanto no dia 9 de agosto foram detectados 101 focos na região, no dia 10 esse número pulou para 715, um aumento de 707% de um dia para o outro.

Onde aconteceu o Dia do Fogo

“Mesmo com o “Dia do Fogo” sendo amplamente noticiado na imprensa do mundo inteiro, pouco foi feito para punir os culpados. Das 207 propriedades que registraram queima em floresta nesses dois dias, apenas 5% foram autuadas. O governo manteve seus olhos voltados para outro lugar, mostrando, mais uma vez, que quem comete crimes ambientais sai impune”, afirma Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Como resultado, agosto de 2019 fechou com o maior número de focos de calor registrados na Amazônia para o mês desde 2010.

Somente os municípios de Novo Progresso, Itaituba, Altamira, São Félix do Xingu — que também figuraram entre os 10 municípios mais desmatados em 2019 —, além de Jacareacanga e Trairão, foram responsáveis por 79% dos focos detectados no Pará em agosto do ano passado.

Nesses dois dias, 53 focos de calor atingiram Terras Indígenas e 534 incidiram em Unidades de Conservação. Além disso, 580 focos de calor, o que representa 39,8% do total, foram registrados em área de floresta e cerca de 32,8% em áreas desmatadas, sobretudo no ano referência do PRODES de 2019. 

“Os incêndios na floresta amazônica não são resultado de um fenômeno natural, mas da ação humana. Os dados só reforçam que o fogo é uma das principais ferramentas utilizadas para o desmatamento, especialmente por grileiros e pecuaristas, que o usam para limpar áreas para uso na agropecuária ou especulação”, comenta Batista.

O que foi o Dia do Fogo