Arquivos novembro 2016

4 — Os Homens Ocos
(T. S. Eliot)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

(Trecho de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueir


sou louco e louco feito esses caras

eração Beat: A geração mais porra louca da história
A Geração Beat foi a responsável por dar inicio à onda juvenil que formou a imagem do jovem moderno. Senta que lá vem história. E das boas.

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Geração Beat FOTOGRAFIA DE ROBERT FRANK PARA SEU LIVRO “THE AMERICANS”, LANÇADO EM 1958
O lançamento de On The Road, adaptação de Walter Salles para o cinema da obra clássica e homônima de Jack Kerouac, trouxe de volta aos holofotes a Geração Beat. Um dos movimentos mais importantes do século XX deu o pontapé para as revoluções juvenis que integrariam um único movimento-mor: a contracultura. Eu já era fã de Kerouac, então fui conferir o filme e saí extasiado do cinema, cheio de vontade de entender mais sobre essa galera que tanto causou lá nos anos 50. Para minha surpresa, descobri que os beats foram os responsáveis por iniciar a onda juvenil que formaria o modelo de jovem que conhecemos hoje. Senta que lá vem história, e das boas.
A América após a Segunda Guerra Mundial
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e União Soviética emergiram como superpotências políticas mundiais. A partir daí, foi dada a largada numa corrida armamentista, tendo a “paz” como plano de fundo, chamada Guerra Fria, focando na rivalidade entre o capitalismo e o comunismo.
Como os EUA eram temidos por ser a nação detentora da bomba atômica, ainda o fato da mesma se desenvolver numa velocidade absurda na segunda metade do século XX, eles direcionaram praticamente toda América, com exceção de Cuba e alguns outros pequenos países. Sendo assim, um modelo de ordem tradicional, oportunista e exploração política foi implantado com o intuito de enfrentar o comunismo e todos os seus possíveis aliados.
Em meados dos anos 40, teve inicio, então, o macartismo (do senador americano Joseph McCarthy), termo que define o período de caça às “bruxas” (leia-se comunistas) nos EUA. O jornalista Edward R. Murrow ficou conhecido por encabeçar a luta contra o macartismo, veiculando duras críticas aos ideais de McCarthy e combatendo a alienação do povo americano.
O macartismo foi marcado por uma forte perseguição política e artística, condenando diversos atores, diretores, escritores, pintores, jornalistas, entre outros.
O Modernismo já havia empregado a ideia genérica de “rejeição da tradição e uma tendência a encarar problemas sob uma nova perspectiva”, mas o seu filho direto, a Contracultura, juntou elementos de vários outros movimentos, como o Surrealismo e Existencialismo, e criou a sua própria base de contestação e protesto, muito conveniente com o cenário da época em que foi criado.
Neste contexto, a Geração Beat nasceu propondo liberdade de expressão, aventuras, experimentos e a vontade incontrolável de gritar para o mundo a sua visão.
Geração Beat
A Geração Beat e a influência na cultura ocidental
A Geração Beat é representada por um grupo de artistas e escritores norte-americanos que surgiu no início dos anos 50, apoiados na não-conformidade e na criatividade espontânea. Os beats foram os primeiros a irem contra o materialismo, intolerância, desrespeito aos direitos civis e a visão quadrada adotada pelo Governo americano após a Segunda Guerra Mundial.
Experimentações com drogas, álcool, sexo livre de regras, o interesse por religiões orientais e em estilos de música marginalizados, como o jazz, moviam os beats e os seus processos de criação. Uma das principais características eram as constantes viagens em grupos seguidas pela bagunça provocada.
O movimento Beat atingiu outras formas de arte, mas se manifestou efetivamente através da literatura. Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Gregory Corso, William S. Burroughs e Lawrence Ferllinghetti são os precursores da Geração. Mais do que escritores e poetas, junto ao mito Neal Cassady, eles eram lunáticos, ensandecidos, rebeldes, nômades, libertários.

Geração BeatO estilo narrativo era designado essencialmente pela intensidade e exagero das personagens, situações e temas abordados. A escrita era compulsiva, caótica, desordenada e fazia uso de uma linguagem informal, muitas vezes considerada marginal, cheia de gírias e neologismos.
Tudo isso serviu de plataforma para diversas subculturas que surgiriam em seguida, como os Hippies (em 1959) e os Punks (por volta de 1974). Além disso, é possível notar uma forte influência na música (Bob Dylan, Jim Morrison, Beatles, Soft Machine), cinema (filmes de Wim Wenders e Jim Jarmusch) e literatura (Ken Kesey, Thomas Pynchon e Tom Robbins) pós-Geração Beat. O rótulo beatnik, criado na década de 60 pela mídia, não é sinônimo da Geração Beat, pelo contrário, é um termo depreciativo usado para designar os copiadores do movimento original.
Quem eram os beats?
Muitas das figuras-chave da Geração Beat eram homossexuais ou bissexuais, alguns até muito abertos para a época, como Ginsberg. Todos, sem exceção, levavam uma vida boêmia e desregrada. Conheça algumas dessas mentes:
JACK KEROUAC (1922-1969) – Jack criou o termo “Beat Generation”, em 1948, e é um dos pioneiros do movimento. Com a obra On The Road, escrita em 1951 e publicada em 1957, tornou-se o ícone definitivo do movimento Beat. Sua espontaneidade e despreocupação com a pontuação davam a ideia de “fôlego tomado”, como se o leitor fosse o personagem pensando, falando, respirando. Além das expressões únicas, criadas por ele mesmo para referenciar o Jazz, que muitas vezes não tem sentido e poderiam facilmente estar em alguma canção. Amigo íntimo de Neal Cassady, apresentou-o ao mundo, já que o seu livro acompanha as viagens que ele e Cassady faziam pelos EUA e México.
Geração BeatJACK KEROUAC
ALLEN GINSBERG (1926-1997) – Allen é o que melhor representa a poesia Beat, apesar das influências surrealistas. Liderou a oposição ao militarismo, consumismo e à repressão sexual. Responsável por levar às gerações futuras os conceitos que ele e seus colegas acreditavam. Provou todos os tipos de drogas possíveis, mas preferia LSD em especial, por acreditar que libertava sua mente e elevava sua consciência. Em um desses transes, criou o seu poema mais famoso, Howl, dedicado ao amigo Carl Solomon, e que viria a fazer parte da coleção Howl and Other Poems (1956).
Um trecho do poema “Howl“:
“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite,
que pobres esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão dos
miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando o jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado”

Geração BeatALLEN GINSBERG, NEAL CASSADY E WILLIAM S. BURROUGHS
WILLIAM BURROUGHS (1914-1997) – Criador da controversa obra The Naked Lunch (1959), Burroughs teve muitos problemas com drogas, tanto que matou sua mulher, Joan Vollmer, acidentalmente. Assumidamente gay, chegou a escrever diversos manuscritos sobre o universo homossexual, publicados após sua morte.
NEAL CASSADY (1926-1968) – Tornou-se um mito da Geração Beat mais por seu comportamento, casos e estilo de vida do que por qualquer outra coisa. Neal era inquieto, ávido pela vida e tinha a necessidade de estar sempre no centro de tudo, ser o causador das situações. Amigo íntimo de Jack Kerouac e affair de Allen Ginsberg, o qual era extremamente apaixonado por ele, Cassady protagonizou vários roubos, já foi preso e viajou para vários lugares, sempre influenciando pessoas e inspirando outras. Ele é referenciado e cultuado por diversos autores Beats, entre eles os seus amigos Kerouac e Ginsberg. Inspirou o clássico personagem Dean Moriarty de On The Road.
***
A Geração Beat originou diversas causas políticas e sociais, impactando diretamente na maneira como vivemos. Algumas delas são a revolução sexual e racial entre os 60 e 70; a luta contra a intolerância, homofobia e racismo; o empenho contra a censura; a criação do rock n’ roll e sua evolução; a disseminação da consciência ecológica; oposição ao militarismo e a regimes ditatoriais; a valorização da idiossincrasia e da opinião particular; e o respeito por todos os povos e classes.
Sem preconceitos, eles eram loucos, mas loucos por viver, loucos por falar. Eram almas inquietas que não só desaprovavam o america way of life, mas também qualquer tipo de repreensão que impossibilitasse o acesso à cultura.
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/ Danilo Novais
Criador do @cultpopshow, amante de cultura pop e boas conversas. Faminto por novas ideias e fascinado pela história da juventude. Ama ler, escrever, ouvir músicas e assistir a séries de TV.
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