Arquivos junho 2017

A alma e a matéria

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown

Procuro nas coisas vagas ciência
Eu movo dezenas de músculos para sorrir
Nos poros a contrair, nas pétalas do jasmim
Com a brisa que vem roçar da outra margem do mar

Procuro na paisagem cadência
Os átomos coreografam a grama do chão
Na pele braile pra ler na superfície de mim
Milímetros de prazer, quilômetros de paixão

Vem pra esse mundo, Deus quer nascer
Há algo invisível e encantado entre eu e você
E a alma aproveita pra ser a matéria e viver
E a alma aproveita pra ser a matéria e viver

© BMG / Acre Musical

BR-ONE-06-00009, “Universo Ao Meu Redor”, Mar


Eu

Eu,
que não me entendo, que não me acho,
E que me perco pelas esquinas do mundo,
À procura de respostas para essa louca vida,
Só acho perguntas.
Eu,
que tento me desvendar,
continuo um mistério.
Eu,
que tantas vezes desanimo,
acabo nadando contra a corrente.
Eu,
que quando pareço derrotado,
Redobro as forças, recomeço tudo.
Eu,
que com todas as dificuldades da vida,
Teimo,
E continuo com meu sorriso insiste


O nome de Hilda Hilst certamente merece lugar de destaque na literatura brasileira. Poeta enigmática, instigante e, para muitos, estranha e hermética, Hilda é um dos grandes nomes de nossas letras, indispensável voz feminina em nossa poesia. Foi poeta, dramaturga, ficcionista, nasceu no interior do estado de São Paulo, na cidade de Jaú, no dia 21 de abril de 1930 e faleceu em Campinas, no dia 04 de fevereiro de 2004. Deixou uma grande e intensa contribuição para nossa literatura, e continua despertando o interesse de leitores e estudiosos de sua obra.

Em 1948 inicia seus estudos de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, em São Paulo. Mulher de rara beleza, Hilda comportava-se de maneira muita avançada para a época, comportamento que chocava a alta sociedade paulista, uma vez que despertou paixões de poderosos, entre eles empresários e poetas. Levou uma vida de boêmia, rotina que se prolongou até o ano de 1963. Seus primeiros livros foram lançados, Presságio e Balada de Alzira, foram lançados em 1950 e 1951, respectivamente, e em 1952 conclui o curso de Direito.

Em 1962 recebe o Prêmio Pen Club de São Paulo, e neste mesmo ano passa a morar na Fazenda São José, próxima a Campinas, de propriedade de sua mãe. Abandona a vida de boêmia e passa a se dedicar exclusivamente à literatura, por entender que o isolamento do mundo tornava possível o conhecimento do ser humano. Em 1966 muda-se para a Casa do Sol (hoje Instituto Hilda Hilst), construída na fazenda, onde passa a viver com o escultor Dante Casarini, com quem se casaria em 1968 à pedido da mãe. Tem início uma intensa produção literária, que lhe renderia diversas homenagens e prêmios, entre eles o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), pelo livro Ficções, considerado o “Melhor Livro do Ano”. Em 1980 recebe da mesma instituição o prêmio pelo conjunto da obra.

Tem início uma nova fase de sua carreira, que a escritora anunciou como o “adeus à literatura séria”, em uma tentativa de vender mais e assim conquistar o reconhecimento do público. As obras dessa fase provocam espanto e indignação entre os amigos e crítica. A temática de sua poesia circundou as ações humanas, a inquietude do ser, a morte, o amor, o sexo, Deus e indagações metafísicas, tema que a levou a flertar com a Física e com a Filosofia. Entre suas experiências literárias, esteve aquilo que ela chamou de “Transcomunicação Instrumental”, quando deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol, hoje Instituto Hilda Hilst) com o intuito de gravar vozes de espíritos, demonstrando assim sua clara preocupação com a sobrevivência da alma.

Para que você conheça um pouco mais sobre a obra dessa importante escritora, o site Escola Educação selecionou quinze poemas de Hilda Hist para que você desvende os mistérios dessa interessante, e enigmática, voz de nossa literatura. Boa leitura!

  1. Poema: Araras versáteis – Hilda Hilst

Araras versáteis

Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii…
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

  1. Poema: Amavisse – Hilda Hilst

Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
(II)

* * *
Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.

  1. Poema: Dez chamamentos ao amigo – Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te


Ferreira Gullar

Poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta. Ferreira Gullar é considerado como o maior poeta vivo da literatura brasileira. Um dos nomes mais importantes de nossas letras, José Ribamar Ferreira iniciou sua carreira no ano de 1940, em São Luís, Maranhão, sua cidade natal. Em 1951 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde colaborou com diversas publicações, entre elas revistas e jornais, além de ter participado ativamente da criação do movimento neoconcreto.

A poesia de Ferreira Gullar sempre destacou-se pelo engajamento político. Por meio da palavra, Gullar fez da poesia um importante instrumento de denúncia social, especialmente na produção dos anos de 1950, 1960 e 1990, haja vista que, posteriormente, o poeta tenha reconsiderado antigos posicionamentos.

Sua poética engajada ganhou força a partir dos anos de 1960 quando, ao romper com a poesia de vanguarda, aderiu ao Centro Popular de Cultura (CPC), grupo de intelectuais de esquerda criado em 1961, no Rio de Janeiro, cujo objetivo era defender o caráter coletivo e didático da obra de arte, bem como o engajamento político do artista.

Perseguido pela ditadura militar, Ferreira Gullar exilou-se na Argentina durante os anos de repressão, exílio provocado pelas fortes tensões psíquicas e ideológicas encontradas em sua obra. A importância do poeta foi reconhecida tardiamente, na década de 1990, quando finalmente Gullar foi agraciado com os mais importantes prêmios literários de nosso país. Em 2014, aos 84 anos, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira de número 37, que pertencera ao escritor Ivan Junqueira, morto nesse mesmo ano.

Para que você conheça um pouco mais da obra poética desse importante escritor, o site Escola Educação selecionou quinze poemas de Ferreira Gullar para que você mergulhe nos versos carregados de engajamento e preocupação social, elementos que fizeram do maranhense um dos ícones da literatura brasileira. Boa leitura.

Veja os 15 Melhores Poemas de Ferreira Gullar

  1. Poema: Não há vagas – Ferreira Gullar

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

  1. Poema: Traduzir-se – Ferreira Gullar

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?


Eu,
que não me entendo, que não me acho,
E que me perco pelas esquinas do mundo,
À procura de respostas para essa louca vida,
Só acho perguntas.
Eu,
que tento me desvendar,
continuo um mistério.
Eu,
que tantas vezes desanimo,
acabo nadando contra a corrente.
Eu,
que quando pareço derrotado,
Redobro as forças, recomeço tudo.
Eu,
que com todas as dificuldades da vida,
Teimo,
E continuo com meu sorriso insistente.
Tarde
Tarde