Já ouviram falar de Hilda Hist?

17 de novembro de 2018 Off Por Pedro Taunay Graça Couto

ESEJO I”, DE HILDA HILST (1930-2004)

Hilda Hilst foi a nossa maior escritora erótica, me arrisco dizer. Poeta, romancista, contista, cronista, dramaturga, e excelente em todas as suas faces, ela fez uma literatura que chocou a sua época. Hilda confundiu os limites entre erótico e pornográfico, quando escreveu a polêmica trilogia pornô na década de 1990, tratando de temas como a prostituição infantil – “O Caderno Rosa de Lori Lamby” –, e incesto – “Cartas de um Sedutor”.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidas. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

“MADEMOISELLE FURTA-COR”, DE ARMANDO FREITAS FILHO  (1940- )

Armando, muito conhecido como amigo e parceiro de Ana Cristina Cesar (1952-1983), dedicou grande parte da sua vasta obra à poesia erótica. O poema que escolhi faz parte da série “Mademoiselle Furta-Cor” (1977), que narra uma longa experiência sexual.

Eu conheço o seu começo:

                ponto e novelo,

meada de mel e langor

                 de lentos elos

que a minha língua lambe

          no calor despido,

no meio das suas pernas:

         anéis de cabelos,

anelos e nós se desmancham

      em nada ou nódoa

por todo o lençol do corpo

           nu e amarrotado:

nós aqui somos todos laços

             e nos rasgamos

devagar – poro por poro;

           rumor de sedas

ou de uma pele toda feita

  de suor e suspiro:

eu soluço a cada susto seu

    que nos dissolve.