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Os buracos do espelho
Arnaldo Antunes
O Globo: 27/07/2009

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

Antônio Cícero poesia&vida

Conheça a poesia de Antonio Cicero
29 de setembro de 2017 Caroline Svitras 0 Comentário
Por Fabiano Fernandes Garcez* | Fotos: Divulgação / Eucanaã Ferraz | Adaptação web Caroline Svitras

Antonio Cicero é poeta, ensaísta, letrista e filósofo. Escreve poesia desde criança, virou letrista quando sua irmã, a cantora Marina Lima, pegou um de seus poemas e musicou. Publicou os ensaios filosóficos: O mundo desde o fim, Francisco Alves, 1995, Finalidades sem fim, Companhia das Letras, 2005 que foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Teoria / Crítica literária e Poesia e filosofia, Civilização Brasileira, 2012 e os livros de poesia Guardar, Record, 1996, vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, na categoria estreante. A cidade e os livros, Record, 2002, Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo),+ 2 Editora, 2010. Além de publicar um livro de entrevistas organizado por Arthur Nogueira, Antonio Cicero por Antonio Cicero, 2012 e lançar um CD de poemas com o mesmo título.

Em 2012 lança, seu terceiro livro de poesia Porventura. Poesia e filosofia se misturam na vida de Antonio Cicero, porém para aqueles que acham que elas podem ser misturar, em Poesia e Filosofia, cap. 5. A filosofia no poema, Antonio Cicero avisa que:

(…) o valor de uma obra de filosofia enquanto filosofia depende em grande parte da originalidade das teses filosóficas que ela afirma; o valor de uma obra de poesia enquanto poesia não depende da originalidade das teses filosóficas que ela afirma.

Antonio Cicero é um grande artífice das palavras, sua poesia é concisa, racional, tudo é justo, simetricamente perfeito, porém sem ser hermético e perder o teor comunicativo. Utiliza conscientemente, além do rigor gramatical, os recursos poéticos: métrica, rimas, sobretudo as internas ou a toantes, assonâncias, aliterações, tudo isso proporciona muita musicalidade em seus versos, – o poeta é um ótimo declamador-, o que traz certo tom coloquial, o vocabulário é aparentemente simples, – o mais desavisado pode até tropeçar em uma ou outra palavra dura, áspera, por vezes, nada poética –, explora, como poucos, a polissemia das palavras. Veja o poema Aparências:

Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes mais arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais re-
velassem
mais
eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.

Vejam como a repetição do termo mais dá musicalidade ao verso, que é quebrada com os pares: enganassem-me/desenganassem-me, parecessem/desaparecessem, velassem/ desvelassem. A musicalidade não é só quebrada com o uso dessas palavras, porém o que mais dificulta a leitura do poema é que o fim da frase não coincide com quebra do verso, talvez se estes versos fossem escritos dessa maneira (mais aparecessem para mim e desaparecessem/ mais velassem mais desvelassem/ mais revelassem/ mais revelassem mais) sua leitura fosse mais fruída, porém o poema perderia a polissemia do verso velassem, após ser separado do prefixo re, final do verso anterior, o que repete o próprio verbo velar, início do verso anterior.

Porventura não aparenta nenhum arrojo estético, os poemas são, predominantemente, grafados em uma estrofe, com exceção aos poemas Síntese e Fedra que estão em caixa alta.

O advérbio porventura que dá título ao livro é sinônimo de acaso, possivelmente, quiçá e talvez, assim o plano hipotético inunda cada poema, trazendo como tema central do livro o tempo, ora o presente, de olho no cotidiano urbano As flores na cidade, Presente e Meio-fio.

Com versos brancos de sete sílabas, redondilha maior, o poema Blackout é construído a partir do da percepção do eu poético que ao escrever vê a possibilidade ser visto, em seu quarto, a ler em voz alta o poema em construção, por alguém de fora, da rua ou outro apartamento, e esse observador sentir inveja ou recalque e acabar por lhe dar um tiro, assim o poeta encerra o poema fechando a cortina. Em extremo oposto ao eu poético do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, heterônimo Fernando Pessoa, que está em seu quarto a observar o mundo pela janela, porém se sente sozinho e à parte dele (Janelas do meu quarto,/Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é/(E se soubessem quem é, o que saberiam?),/Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,/Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,) o eu poético de Blackout é o centro das atenções, que mesmo sozinho em seu quarto ainda recebe atenção a ponto de incomodar alguém. Outra possibilidade de leitura ler o poema pelo viés da violência social, sobre tudo na cidade do Rio de Janeiro, que a qualquer momento o ambiente pode ser invadido por uma bala perdida.

O ato poético para Cicero é desnudamento, por isso ser visto em pleno ato da escrita, causa no eu poético excitação, pois é na escrita que o oculto se revela, se mostra, veja o poema Poema:

Segredo não é, conquanto oculto;
mas onde oculto, se o manifesta
cada verso seu, cada vocábulo,
casa sílaba cada fonema?

Para o leitor, no entanto, o poema também é revelação revelação também ocorre Muro, poema que estava no projeto “Poesia em Concreto” da Mostra Sesc de Artes de 2008:

E se o poema opaco feito muro
te fizer sonhar noites em claro?
E se justo o poema mais obscuro te resplandecer mais que o mais claro?