VIDA E SENTIDO – Autor: Joaquim Barros

TOMO I

Dogmas não me satisfazem
Não sou uma suposição incondicional
Sou vida, sou animal
Vida que não sei se é
O que de fato sinto por ela
Morte que a dá sentido
Num exaustivo interagir
Que me deixa aflito
Por descobrir.

Sou fé sem milagres
Distingo-me dos meus pares
Internos os pares, pois
Há multiplicidade encarnada na mesma carne
Que alma resiste?

Se o implacável tempo
Este ser perverso que não cede
Faz-me alma em vida
A vida hoje, a vida outrora
E amanhã a morte anunciada
Como viroses de outono,
Com suas nuvens carregadas.

VIDA E SENTIDO – Autor: Joaquim Barros TOMO

Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles