O Poeta de hoje é Conceição Evaristo

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Conceição Evaristo: vida, obra e importância na literatura brasileira

Laura Aidar

Laura Aidar 

Arte-educadora, fotógrafa e artista visual

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Conceição Evaristo é uma importante escritora brasileira. Seus contos, romances, poesias e ensaios tratam de questões ligadas à ancestralidade e afrobrasilidade.

Nascida em Belo Horizonte (MG), em 1946, Conceição veio de uma família humilde e trabalhou como empregada doméstica até 1971. Dois anos depois se muda para o Rio de Janeiro, onde se forma em Letras pela UFRJ.

Em 1996 se torna mestra em Literatura pela PUC/RJ com a dissertação Literatura Negra: uma poética da nossa afro-brasilidade. Em 2011 conclui doutorado na UFF com a tese Poemas Malungos – Cânticos Irmãos.

Ingressa na cena literária a partir do anos 90, quando passa a publicar seus textos na série Cadernos Negros, publicação do Grupo Quilombhoje.

Além de escritora, Conceição também atuou como docente em Universidades e instituições no Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

retrato de Conceição Evaristo
Retrato de Conceição Evaristo. Foto: Fora do Eixo

Livros de Conceição Evaristo

  • Ponciá Vicêncio (2003) – Romance.
  • Becos da Memória. (2006) – Romance.
  • Poemas da recordação e outros movimentos. (2008) – Poesia.
  • Insubmissas lágrimas de mulheres. (2011) – Contos.
  • Olhos d’água. (2014) – Contos.
  • Histórias de leves enganos e parecenças. (2016) – Contos e novela.
  • Canção para ninar menino grande. (2018) – Novela.

Importância de sua obra e principais temas

A importância da literatura de Conceição Evaristo se dá na medida em assume uma postura crítica e sensível em relação à história do povo negro no Brasil. Tal posicionamento já se revela em seu romance de estreia e livro mais célebre, Ponciá Vicêncio.

Sua escrita tem grande relevância para a formação cultural brasileira e a levou a receber o título de Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti, em 2019.

Os temas que aborda têm relação com suas experiências de vida, pois aprofundam reflexões sobre discriminação racial e desigualdades de classe e de gênero, trazendo um retrato contundente de grande parte da população brasileira.

Por conta disso, Conceição criou o termo “escrevivência” para definir essa escrita que surge do dia a dia, dos acontecimentos comuns do cotidiano, carregados de memórias pessoais e coletivas de seu povo.

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Frases e poemas de Conceição Evaristo

Da menina, a pipa

Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel
seda esgarçada
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor
e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensangüentada
que afundou num banheiro
público qualquer.

A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.

O imaginário brasileiro, pelo racismo, não concebe reconhecer que as mulheres negras são intelectuais.

Gosto de dizer ainda que a escrita é para mim o movimento de dança-canto que o meu corpo não executou, é a senha pela qual eu acesso o mundo.

A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

Poemas de Clarice

  • HAR

Clarice Lispector foi um dos maiores nomes da literatura brasileira no século XX e suas obras continuam a marcar gerações e conquistar novos admiradores. É por isso que a escritora é nossa homenageada da vez no Foras de Série, série de matérias que homenageiam grandes personalidades brasileiras. 

Neste episódio, vamos relembrar 10 poemas de Clarice Lispector que certamente vão te emocionar. Então prepare o coração e confira! 

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Conheça os poemas mais emocionantes de Clarice Lispector. | Foto: Montagem.

Confira 10 poemas de Clarice Lispector

Veja quais são os 10 poemas de Clarice Lispector que vão te emocionar! 

1. Alma Luz 

“Minha alma tem o peso da luz

Tem o peso da música

Tem o peso da palavra nunca dita,

Prestes quem sabe a ser dita

Tem o peso de uma lembrança

Tem o peso de uma saudade

Tem o peso de um olhar

Pesa como pesa uma ausência

E a lágrima que não chorou

Tem o imaterial peso de uma solidão

No meio de outros”.

2. Dá-me a tua mão 

“Dá-me a tua mão:

Vou agora te contar

como entrei no inexpressivo

que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei

naquilo que existe entre o número um e o número dois,

de como vi a linha de mistério e fogo,

e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,

entre dois fatos existe um fato,

entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam

existe um intervalo de espaço,

existe um sentir que é entre o sentir

– nos interstícios da matéria primordial

está a linha de mistério e fogo

que é a respiração do mundo,

e a respiração contínua do mundo

é aquilo que ouvimos

e chamamos de silêncio”.

3. A Lucidez perigosa 

“Estou sentindo uma clareza tão grande

que me anula como pessoa atual e comum:

é uma lucidez vazia, como explicar?

assim como um cálculo matemático perfeito

do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer

vendo claramente o vazio.

E nem entendo aquilo que entendo:

pois estou infinitamente maior que eu mesma,

e não me alcanço.

Além do que:

que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez

pode-se tornar o inferno humano

– já me aconteceu antes. Pois sei que

– em termos de nossa diária

e permanente acomodação

resignada à irrealidade –

essa clareza de realidade

é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus,

porque ela não me serve

para viver os dias.

Ajudai-me a de novo consistir

dos modos possíveis.

Tudo sobre Clarice

Há escritores que explicam o mundo. Outros, mais raros, o tornam ainda mais enigmático — e, por isso mesmo, mais verdadeiro. Clarice Lispector pertence a essa segunda categoria. Nascida na Ucrânia e criada no Brasil, ela construiu uma obra que escapa a rótulos fáceis e mergulha no que há de mais íntimo: a consciência, o instante, o susto de existir. Em livros como A Hora da Estrela, A Paixão Segundo G.H. e Perto do Coração Selvagem, o que importa não é a resposta, mas a pergunta — quem somos, afinal?


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É nesse horizonte que sua última entrevista, concedida em 1977 ao jornalista Julio Lerner na TV Cultura, se revela tão singular. Não há linearidade, nem explicações fáceis. Clarice responde como escreve: com pausas, desvios e silêncios que dizem tanto quanto as palavras. Em certo momento, afirma: “Eu não sei explicar. Eu escrevo.” Mais do que recusa, há aí uma posição: nem tudo pode — ou deve — ser traduzido.