Só poesia

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    Nessa Pressa

     Nessa pressa que nos consome, as cidades não nos esperam. A solidão que nos devora. O formigueiro humano segue com a sua desmedida ambição. Ninguém repara mais na miséria em cada esquina, indiferentes a dor alheia. Não ninguém para mais para sentir   a delicadeza de um poema, ou a inocência de uma flor

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    Só Poesia


    1. Paulo Leminski (1944-1989)

    Paulo Leminski

    Poeta brasileiro contemporâneo, Leminski nasceu em Curitiba, no Paraná. Foi um dos grandes representantes da poesia marginal, com forte característica vanguardista. Além de poemas, escreveu contos, ensaios e obras infanto-juvenis.

    Bem no fundo

    No fundo, no fundo,
    bem lá no fundo,
    a gente gostaria
    de ver nossos problemas
    resolvidos por decreto

    a partir desta data,
    aquela mágoa sem remédio
    é considerada nula
    e sobre ela — silêncio perpétuo

    extinto por lei todo o remorso,
    maldito seja quem olhar pra trás,
    lá pra trás não há nada,
    e nada mais

    mas problemas não se resolvem,
    problemas têm família grande,
    e aos domingos
    saem todos a passear
    o problema, sua senhora
    e outros pequenos probleminhas.

    2. João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

    João Cabral de Melo Neto

    Poeta moderno nascido em Pernambuco, João Cabral ficou conhecido como o “poeta engenheiro”. Foi grande destaque da terceira geração modernista no Brasil e, além de poemas, escreveu obras em prosa.

    O Relógio

    Ao redor da vida do homem
    há certas caixas de vidro,
    dentro das quais, como em jaula,
    se ouve palpitar um bicho.

    Se são jaulas não é certo;
    mais perto estão das gaiolas
    ao menos, pelo tamanho
    e quadradiço de forma.

    Umas vezes, tais gaiolas
    vão penduradas nos muros;
    outras vezes, mais privadas,
    vão num bolso, num dos pulsos.

    Mas onde esteja: a gaiola
    será de pássaro ou pássara:
    é alada a palpitação,
    a saltação que ela guarda;

    e de pássaro cantor,
    não pássaro de plumagem:
    pois delas se emite um canto
    de uma tal continuidade.

    3. Jorge de Lima (1893-1953)

    Jorge de Lima

    Poeta brasileiro modernismo nascido em Alagoas, Jorge de Lima ficou conhecido como “príncipe dos poetas alagoanos”. Grande destaque da segunda geração modernista no Brasil, além de poemas, ele escreveu romances, peças de teatro e ensaios.

    Mulher proletária

    Mulher proletária — única fábrica
    que o operário tem, (fabrica filhos)
    tu
    na tua superprodução de máquina humana
    forneces anjos para o Senhor Jesus,
    forneces braços para o senhor burguês.

    Mulher proletária,
    o operário, teu proprietário
    há de ver, há de ver:
    a tua produção,
    a tua superprodução,
    ao contrário das máquinas burguesas
    salvar o teu proprietário.

    4. Ariano Suassuna (1927-2014)

    Ariano Suassuna

    Poeta brasileiro paraibano, Suassuna foi idealizador do movimento armorial, com foco na valorização das artes populares. Teve destaque na literatura de cordel e além de poemas, escreveu romances, ensaios e obras de dramaturgia.

    Aqui morava um rei

    Aqui morava um rei quando eu menino
    Vestia ouro e castanho no gibão,
    Pedra da Sorte sobre meu Destino,
    Pulsava junto ao meu, seu coração.

    Para mim, o seu cantar era Divino,
    Quando ao som da viola e do bordão,
    Cantava com voz rouca, o Desatino,
    O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

    Mas mataram meu pai. Desde esse dia
    Eu me vi, como cego sem meu guia
    Que se foi para o Sol, transfigurado.

    Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
    Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
    Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

    5. Carolina de Jesus (1914-1977)

    Carolina de Jesus

    Poetisa mineira, tinha pouca instrução, mas uma grande paixão pelas letras. Ficou conhecida com a publicação dos manuscritos que contavam o dia a dia na favela em que vivia.

    Sonhei

    Sonhei que estava morta
    Vi um corpo no caixão
    Em vez de flores eram Iivros
    Que estavam nas minhas mãos
    Sonhei que estava estendida
    No cimo de uma mesa
    Vi o meu corpo sem vida
    Entre quatro velas acesas

    Ao lado o padre rezava
    Comoveu-me a sua oração
    Ao bom Deus ele implorava
    Para dar-me a salvação
    Suplicava ao Pai Eterno
    Para amenizar o meu sofrimento
    Não me enviar para o inferno
    Que deve ser um tormento

    Ele deu-me a extrema-unção
    Quanta ternura notei
    Quando foi fechar o caixão
    Eu sorri… e despertei.

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    Poema

    Poema de Natal

    Para isso fomos feitos
    Para lembrar e ser lembrados
    Para chorar e fazer chorar
    Para enterrar os nossos mortos
    Por isso temos braços longos para os adeuses
    Mãos para colher o que foi dado
    Dedos para cavar a terra.

    Assim será a nossa vida
    Uma tarde sempre a esquecer
    Uma estrela a se apagar na treva
    Um caminho entre dois túmulos
    Por isso precisamos velar
    Falar baixo, pisar leve, ver
    A noite dormir em silêncio.

    Não há muito o que dizer
    Uma canção sobre um berço
    Um verso, talvez, de amor
    Uma prece por quem se vai
    Mas que essa hora não esqueça
    E por ela os nossos corações
    Se deixem, graves e simples.

    Pois para isso fomos feitos
    Para a esperança no milagre
    Para a participação da poesia
    Para ver a face da morte
    De repente nunca mais esperaremos…
    Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
    Nascemos, imensamente.

    Vinícius de Moraes. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, p. 223 Via viniciusdemoraes.com

    Vinicius transforma o Natal em metá