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    Manoel de Barros (1916-2014)

    Considerado um dos maiores poetas brasileiros, Manuel de Barros nasceu no Mato Grosso. Foi grande destaque na terceira fase do modernismo no Brasil, chamada “Geração de 45”. Em sua obra focou nos temas do cotidiano e da natureza.

    Os deslimites da palavra

    Ando muito completo de vazios.
    Meu órgão de morrer me predomina.
    Estou sem eternidades.
    Não posso mais saber quando amanheço ontem.
    Está rengo de mim o amanhecer.
    Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
    Atrás do ocaso fervem os insetos.
    Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
    destino.
    Essas coisas me mudam para cisco.
    A minha independência tem algemas

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    Manuel Bandeira (1886-1968)

    Poeta brasileiro pernambucano, Manuel teve grande destaque na primeira fase do modernismo no Brasil. Além de poemas, escreveu também obras em prosa. Com grande lirismo, sua obra versa sobre temas do cotidiano e da melancolia.

    Desencanto

    Eu faço versos como quem chora
    De desalento… de desencanto…
    Fecha o meu livro, se por agora
    Não tens motivo nenhum de pranto.

    Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
    Tristeza esparsa… remorso vão…
    Dói-me nas veias. Amargo e quente,
    Cai, gota a gota, do coração.

    E nestes versos de angústia rouca
    Assim dos lábios a vida corre,
    Deixando um acre sabor na boca.

    – Eu faço versos como quem morre.

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    Cecília Meireles (1901-1964)

    Poetisa brasileira carioca, Cecília é uma das primeiras mulheres a ter grande destaque na literatura brasileira. Foi escritora da segunda fase do modernismo no Brasil. Seus poemas apresentam caráter intimista, com forte influência da psicanálise e da temática social.

    Motivo

    Eu canto porque o instante existe
    e a minha vida está completa.
    Não sou alegre nem sou triste:
    sou poeta.

    Irmão das coisas fugidias,
    não sinto gozo nem tormento.
    Atravesso noites e dias
    no vento.

    Se desmorono ou se edifico,
    se permaneço ou me desfaço,
    — não sei, não sei. Não sei se fico
    ou passo.

    Sei que canto. E a canção é tudo.
    Tem sangue eterno a asa ritmada.
    E um dia sei que estarei mudo:
    — mais nada.

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    Hilda Hilst (1930-2004)

    Poetisa brasileira nascida em Jaú, no interior de São Paulo. Hilda é considerada uma das maiores escritoras do século XX do Brasil. Além de poemas, ela escreveu crônicas e obras de dramaturgia.

    Tateio

    Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
    O fundo sortilégio da omoplata.
    Matéria-menina a tua fronte e eu
    Madurez, ausência nos teus claros
    Guardados.

    Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
    Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
    Esta fronte que é minha, prodigiosa
    De núpcias e caminho
    É tão diversa da tua fronte descuidada.

    Tateio. E a um só tempo vivo
    E vou morrendo. Entre terra e água
    Meu existir anfíbio. Passeia
    Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
    Noturno girassol. Rama secreta.

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    Cora Coralina (1889-1985)

    Poetisa brasileira nascida em Goiás, Cora é conhecida como a “escritora das coisas simples”. Além de poemas, ela escreveu contos e obras de literatura infantil. Sua poesia tem como grande característica os temas cotidianos.

    Mulher da vida

    Mulher da Vida,
    Minha irmã.
    De todos os tempos.
    De todos os povos.
    De todas as latitudes.
    Ela vem do fundo imemorial das idades
    e carrega a carga pesada
    dos mais torpes sinônimos,
    apelidos e ápodos:
    Mulher da zona,
    Mulher da rua,
    Mulher perdida,
    Mulher à toa.
    Mulher da vida,
    Minha irmã.

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    Adélia Prado (1935)

    Poetisa mineira, Adélia é uma escritora da literatura brasileira contemporânea. Além de poemas, escreveu romances e contos, onde explora, em grande parte, o tema da mulher.

    Com licença poética

    Quando nasci um anjo esbelto,
    desses que tocam trombeta, anunciou:
    vai carregar bandeira.
    Cargo muito pesado pra mulher,
    esta espécie ainda envergonhada.
    Aceito os subterfúgios que me cabem,
    sem precisar mentir.
    Não sou feia que não possa casar,
    acho o Rio de Janeiro uma beleza e
    ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
    Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
    Inauguro linhagens, fundo reinos
    — dor não é amargura.
    Minha tristeza não tem pedigree,
    já a minha vontade de alegria,
    sua raiz vai ao meu mil avô.
    Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.

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    Só Poesia


    1. Paulo Leminski (1944-1989)

    Paulo Leminski

    Poeta brasileiro contemporâneo, Leminski nasceu em Curitiba, no Paraná. Foi um dos grandes representantes da poesia marginal, com forte característica vanguardista. Além de poemas, escreveu contos, ensaios e obras infanto-juvenis.

    Bem no fundo

    No fundo, no fundo,
    bem lá no fundo,
    a gente gostaria
    de ver nossos problemas
    resolvidos por decreto

    a partir desta data,
    aquela mágoa sem remédio
    é considerada nula
    e sobre ela — silêncio perpétuo

    extinto por lei todo o remorso,
    maldito seja quem olhar pra trás,
    lá pra trás não há nada,
    e nada mais

    mas problemas não se resolvem,
    problemas têm família grande,
    e aos domingos
    saem todos a passear
    o problema, sua senhora
    e outros pequenos probleminhas.

    2. João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

    João Cabral de Melo Neto

    Poeta moderno nascido em Pernambuco, João Cabral ficou conhecido como o “poeta engenheiro”. Foi grande destaque da terceira geração modernista no Brasil e, além de poemas, escreveu obras em prosa.

    O Relógio

    Ao redor da vida do homem
    há certas caixas de vidro,
    dentro das quais, como em jaula,
    se ouve palpitar um bicho.

    Se são jaulas não é certo;
    mais perto estão das gaiolas
    ao menos, pelo tamanho
    e quadradiço de forma.

    Umas vezes, tais gaiolas
    vão penduradas nos muros;
    outras vezes, mais privadas,
    vão num bolso, num dos pulsos.

    Mas onde esteja: a gaiola
    será de pássaro ou pássara:
    é alada a palpitação,
    a saltação que ela guarda;

    e de pássaro cantor,
    não pássaro de plumagem:
    pois delas se emite um canto
    de uma tal continuidade.

    3. Jorge de Lima (1893-1953)

    Jorge de Lima

    Poeta brasileiro modernismo nascido em Alagoas, Jorge de Lima ficou conhecido como “príncipe dos poetas alagoanos”. Grande destaque da segunda geração modernista no Brasil, além de poemas, ele escreveu romances, peças de teatro e ensaios.

    Mulher proletária

    Mulher proletária — única fábrica
    que o operário tem, (fabrica filhos)
    tu
    na tua superprodução de máquina humana
    forneces anjos para o Senhor Jesus,
    forneces braços para o senhor burguês.

    Mulher proletária,
    o operário, teu proprietário
    há de ver, há de ver:
    a tua produção,
    a tua superprodução,
    ao contrário das máquinas burguesas
    salvar o teu proprietário.

    4. Ariano Suassuna (1927-2014)

    Ariano Suassuna

    Poeta brasileiro paraibano, Suassuna foi idealizador do movimento armorial, com foco na valorização das artes populares. Teve destaque na literatura de cordel e além de poemas, escreveu romances, ensaios e obras de dramaturgia.

    Aqui morava um rei

    Aqui morava um rei quando eu menino
    Vestia ouro e castanho no gibão,
    Pedra da Sorte sobre meu Destino,
    Pulsava junto ao meu, seu coração.

    Para mim, o seu cantar era Divino,
    Quando ao som da viola e do bordão,
    Cantava com voz rouca, o Desatino,
    O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

    Mas mataram meu pai. Desde esse dia
    Eu me vi, como cego sem meu guia
    Que se foi para o Sol, transfigurado.

    Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
    Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
    Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

    5. Carolina de Jesus (1914-1977)

    Carolina de Jesus

    Poetisa mineira, tinha pouca instrução, mas uma grande paixão pelas letras. Ficou conhecida com a publicação dos manuscritos que contavam o dia a dia na favela em que vivia.

    Sonhei

    Sonhei que estava morta
    Vi um corpo no caixão
    Em vez de flores eram Iivros
    Que estavam nas minhas mãos
    Sonhei que estava estendida
    No cimo de uma mesa
    Vi o meu corpo sem vida
    Entre quatro velas acesas

    Ao lado o padre rezava
    Comoveu-me a sua oração
    Ao bom Deus ele implorava
    Para dar-me a salvação
    Suplicava ao Pai Eterno
    Para amenizar o meu sofrimento
    Não me enviar para o inferno
    Que deve ser um tormento

    Ele deu-me a extrema-unção
    Quanta ternura notei
    Quando foi fechar o caixão
    Eu sorri… e despertei.